sexta-feira, 14 de setembro de 2007

África: O lago Chade secou

     A última edição do mapa mundial Comprehensive atlas of the world , feita na Grã-Bretanha e divulgada na quarta-feira 5, traz uma imagem chocante: o famoso Lago Chade, no continente africano, está hoje 95% menor em relação ao seu tamanho há 40 anos. Ele chegou a cobrir uma área de 345 mil quilômetros quadrados (equivalente a três Islândias) e atualmente a sua área total não é maior que 303 quilômetros quadrados. Isso fica claro na última imagem feita por satélites, datada de 2005, mas que só agora se torna pública. A ação do homem e o aquecimento global têm provocado o avanço do deserto na região subsaariana. "Os desastres ambientais vão literalmente se revelando diante dos nossos olhos", diz Mick Ashworth, editor-chefe do atlas.
 
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Ele já mediu 345 mil quilômetros quadrados, o equivalente a três Islândias. Perto disso, hoje é uma poça d'água

     A lista de tragédias ambientais é extensa. O maior rio ao norte da China, o também famoso rio Amarelo (Huang Ho), está mais seco e corre o risco de já não conseguir desaguar no mar – o que causaria drásticas transformações na costa chinesa. Nos EUA, outros dois importantes rios, o Grande e o Colorado, estão perdendo os seus afluentes devido às prolongadas secas de verão. E o Mar Morto, em Israel, vive o seu pior momento dos últimos 50 anos – está 25 metros mais raso e continua encolhendo.
     Esse atlas (editado pelo The Time) foi publicado pela primeira vez em 1895. De 2003 (ano de sua última edição) para cá, passou por mais de 20 mil atualizações – nunca sofrera tantas mudanças e isso é um recorde mundial, uma vez que outra conceituada publicação, a americana National Geographic, recebeu 17 mil atualizações em sua mais recente tiragem. "O mundo está mudando mais rapidamente em comparação a décadas atrás", diz Allen Carroll, cartógrafo da National Geographic. Em meio a tantas transformações ruins quando se trata de ambiente, o mapa do The Time traz pelo menos uma notícia alvissareira: o pântano da Mesopotâmia (Iraque) que fora reduzido a sua décima parte devido às drenagens ordenadas pelo ditador Saddam Hussein está sendo recuperado. Localizado na confluência dos rios Tigre e Eufrates e considerado o maior do mundo, ele teve cerca de 40% de sua extensão refeita depois que os rios que o abastecem voltaram ao curso natural.
 
Autora: Natália Rangel - Isto É - Portal do Meio Ambiente
Disponível em: http://www.portaldomeioambiente.org.br/news//not1.php?id=665
 

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terça-feira, 11 de setembro de 2007

Plástico amigo do meio ambiente

Material desenvolvido a partir de garrafas PET usadas se decompõe em 45 dias
 
     O lixo urbano é um problema para as grandes cidades, agravado pelo aumento do uso de embalagens descartáveis. Para tentar reduzir o descarte inadequado e incentivar a reciclagem de garrafas de plástico do tipo PET (politereftalato de etila) usadas, que levam até 500 anos para se decompor na natureza, a Universidade da Região de Joinville (Univille), em Santa Catarina, e a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) desenvolveram, a partir desse material, um plástico que se degrada no solo em 45 dias.
 
As garrafas de plástico do tipo PET descartadas na natureza levam até 500 anos para se decompor.
 
     Para desenvolver o novo plástico, os pesquisadores adotaram o método da reciclagem química, em que as garrafas são lavadas, esterilizadas, cortadas e colocadas em um reator. Nesse aparelho, a garrafa PET original se une a um polímero biodegradável. Esse composto, ao contrário dos obtidos a partir do petróleo, como o PET, tem decomposição mais rápida. "Polímeros como o PET são formados por anéis aromáticos difíceis de serem quebrados durante a decomposição. Já os polímeros biodegradáveis são compostos por cadeias abertas, ou seja, não têm esses anéis, o que facilita o processo", explica a coordenadora da pesquisa na Univille, a química Ana Paula Pezzin. "Assim, nasce um copolímero de fácil degradação, que em apenas 45 dias alcança estado bastante acelerado de decomposição."
     A equipe avaliou as propriedades e a capacidade de degradação de diversas composições do material. Vários percentuais de quatro polímeros biodegradáveis diferentes foram adicionados ao PET pós-consumo. O tempo máximo de decomposição foi de sete meses – muito pouco se comparado às centenas de anos do PET tradicional. Realizada inicialmente pela química Sandra Einloft, da PUC-RS, a pesquisa conta com o apoio da Universidade Pierre e Marie Curie, da França.
     Segundo Pezzin, o desenvolvimento desses copolímeros é um marco no Brasil, já que o país é um dos campeões em reciclagem de garrafas PET. Dados da Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet) mostram que, em 2005, quase metade das embalagens usadas no Brasil passava por processos de reciclagem.
     No entanto, o material reciclado não pode voltar a ser usado para embalar alimentos ou bebidas. "Isso jamais seria aprovado", diz Pezzin. "As pessoas não aceitariam colocar na boca algo que já esteve no lixo." O material biodegradável pode ser empregado na confecção de embalagens para produtos de beleza, interruptores e materiais de decoração ou qualquer outro produto que seja rapidamente descartado.
 
Garrafas PET.
 
     Os custos para produzir o polímero biodegradável ainda são maiores que os do PET tradicional, mas a pesquisadora alerta para a importância do produto. "Precisamos de alternativas aos materiais derivados de petróleo, já que um dia esse recurso vai se esgotar", argumenta Pezzin. "Além disso, apesar das excelentes propriedades do PET, sua presença em aterros sanitários atrapalha a decomposição de outros materiais, pois dificulta a circulação de líquidos e gases que agem sobre o lixo orgânico." Algumas empresas atentas a esses fatos já demonstram interesse em desenvolver novos materiais a partir dessa tecnologia e as negociações seguem em sigilo.

Autora/Fonte: Fernanda Alves - Ciência Hoje On-line

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Porcelana de osso bovino

Nova substância para implantes é mais resistente e barata
 
     Fórmula inovadora de porcelana feita com cinzas de ossos promete substituir o material convencional utilizado em implantes ósseos e odontológicos. A nova porcelana, desenvolvida com matérias-primas totalmente brasileiras, é mais branca, leve e resistente que a regular, além de apresentar maior grau de compatibilidade biológica. Composto de 50% de cinzas de ossos bovinos, 20% de caulim (minério branco usado em cerâmica para fins plásticos) e 30% de feldspato, o material foi resultado da pesquisa do físico Ricardo Miyahara, em tese de doutorado para a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).


Objetos feitos com a porcelana de ossos bovinos nacional.
(Fotos: Ricardo Miyahara)

     A porcelana comum resulta de um processo cerâmico triaxial, ou seja, é formada por três elementos: argila, feldspato e quartzo. A argila, fundamental para a produção de cerâmica, combina-se com o feldspato, que é transformado em vidro quando submetido a altas temperaturas e tem a propriedade de reduzir o ponto de fusão do quartzo quando misturado a ele, além de dar mais resistência ao material.
     Já a porcelana desenvolvida por Miyahara retoma a técnica surgida na Inglaterra no século 18, que utiliza cinzas de ossos e caulim acrescidos de cornish stone , minério da família do feldspato detentor de propriedades adesivas. "Devido à elevada proporção de ossos, o custo é alto para a obtenção das cinzas de ossos, mas a porcelana resulta mais alva e resistente", diz o físico. A diferença entre a tradicional fórmula inglesa e a porcelana brasileira é a maneira de produção. Substituindo o cornish stone pelo feldspato nacional, o pesquisador chegou a uma nova proporção que se funde à temperatura de 1.270°C, em comparação com os 1.400°C necessários para a queima da porcelana comum.
     "Essa redução da temperatura de queima representa um menor gasto na produção do material, uma vez que o processo de queima pode chegar a 40% do custo do produto. A porcelana adquire maior valor agregado por ser um produto de excelente qualidade, chegando a ser quase duas vezes mais resistente que a comum e mais branca que a porcelana de ossos inglesa", esclarece Miyahara.
 

Ossos bovinos após o tratamento para obter a cinza, que, misturada ao caulim e ao feldspato, é utilizada para a fabricação da porcelana. 
 
     Biocompatibilidade
     O novo composto, quando aplicado em material cirúrgico, como implantes ósseos e odontológicos, apresenta uma vantagem adicional. As cinzas de ossos utilizadas na fórmula contribuem para a pouca rejeição corporal ao objeto inserido, devido à presença da hidroxiapatita, minério encontrado na natureza e, portanto, biocompatível. Esse potencial para bioimplantes solucionaria a rejeição a materiais como a platina, atualmente aplicada na fixação de dentes e em implantes ortopédicos.
     De acordo com Miyahara, a descoberta tem grandes chances de conquistar o mercado de implantes. O estudo está em fase de testes finais para que possa ser encaminhado para avaliação industrial, quando será analisada a viabilidade de produção da porcelana de ossos em larga escala. A possibilidade de o Brasil produzi-la, deixando de importar o produto da Inglaterra, China e Estados Unidos, únicos países produtores expressivos de porcelana, significaria um nicho de mercado promissor. "Como o Brasil é um dos maiores criadores de gado bovino do mundo e tem grande tradição na fabricação de produtos cerâmicos, temos condições de produzir essa porcelana em grande quantidade, podendo até nos tornar um grande exportador do material", conclui Miyahara.

Autora/Fonte: Fabíola Bezerra - Ciência Hoje

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Novo surto de ebola mata pelo menos 116 no Congo

     Pelo menos 116 pessoas morreram na província congolesa de Kasai Ocidental devido a uma epidemia do vírus ebola, segundo o Ministério da Saúde do Congo, com a Organização Mundial da Saúde (OMS) informando hoje que tem registradas cinco mortes pela doença na região do país africano.
 
Vírus Ebola.
 

Modo de infestação.
 
Congo, área do novo surto.
 
O surto está localizado nas cidades de Mweka e Luebo, na província de Kasai Ocidental. O ministro congolês da Saúde, Victor Makwenge Kaput, disse que os 116 falecimentos, de um total de 289 infectados, ocorreram entre 1º de maio e 1º de setembro de 2007.
As autoridades pediram à população que mantenha a calma e informaram que equipes foram destacadas para o local. "Pedimos à OMS que nos apóie na coordenação de respostas", disse Kaput.
O vírus do ebola foi identificado pela primeira vez em 1976 no norte da República Democrática do Congo, perto de um afluente do rio Congo chamado Ebola e que deu nome à doença.
O ebola provoca uma febre hemorrágica altamente contagiosa, transmitida por líquidos corporais como suor, sangue, saliva, urina e vômitos. Existem várias cepas da doença, e a mais mortífera é a chamada Ebola-Zaire, que se localiza no Congo e que provoca a morte de 90% dos infectados, pois não tem cura nem tratamento.
 
Sintomas cutâneos.

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Especialistas em gripe aviária debatem pandemi a?=

     Especialistas em gripe aviária e representantes das Nações Unidas e de vários Governos se reuniram hoje na ilha indonésia de Bali para discutir a prevenção da doença e do contágio entre pessoas, que poderia transformar a doença numa pandemia.
 
Extermínio de aves em áreas afetadas.

     A reunião do governo da Indonésia com os principais parceiros em gripe aviária e preparação para a pandemia vai até amanhã, com a participação do ministro de Coordenação de Bem-estar Social da Indonésia, Aburizal Bakrie, e do coordenador das Nações Unidas para a Gripe Aviária, David Nabarro.
     Os participantes vão analisar a evolução da doença na Indonésia, o país com maior número de contágios e mortos, além de determinar as prioridades estratégicas, as campanhas de informação para o próximo ano e o financiamento dos programas de controle.
     Desde que reapareceu, no final de 2003, a doença matou 85 pessoas na Indonésia e cerca de 200 vítimas no mundo todo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). A epizootia é endêmica nas ilhas de Java, Sumatra e Bali, e na região das Célebes, no sul do país.
 

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segunda-feira, 10 de setembro de 2007

As alternativas energéticas ameaçam o futuro

     Pertence aos que se dedicam ao pensamento, refletir sobre os destinos da sociedade em que vivem e, ousadamente, também os destinos do planeta e da humanidade. Digo isso a propósito do novo estado da Terra produzido pelo aquecimento global, à esta altura irrefreável. A grande maioria não se dá conta das consequências que advirão de tal verificação empiricamente comprovada.
    A primeira constatação que importa fazer é: o aquecimento precisa ser qualificado. Não basta dizer que é andrópico, vale dizer, produzido pelo ser humano. Que ser humano? Pelos índios, pelos esquimós? Precisamos dizer com todas as letras: o aquecimento foi produzido por aquela porção de homens que introduziram a produção industrial já há três séculos, aceleraram o consumo energético, inventaram a tecno-ciência que agride ecossistemas (ecologia ambiental), indutora de uma perversa desigualdade social (ecologia social) e devastadora do planeta como um todo (ecologia integral) e projetaram a cultura do consumo ilimitado (ecologia mental). Hoje são corporações industriais globalizadas, gigantes da bioquímica e do agro-negócio e instituições afins. São eles que mais poluem (só os USA 25%) e que mais resistem às mudanças paradigmáticas. Se eles não se alfabetizarem ecologicamente e não mudarem o rumo do mundo poderão levar a biosfera para um impasse desastroso.
    A segunda constatação, por mais desafiadora que seja, é singelamente esta: como está não dá mais para continuar. Somos obrigados, se queremos salvar o planeta e a humanidade, a imaginar e a inventar um outro modo de conviver, de produzir para toda a comunidade de vida, de distribuir os bens necessários, de consumir responsável e solidariamente e de tratar os dejetos. Precisamos, como enfatiza a Carta da Terra, de "um modo sustentável de viver" porque o vigente, como foi comprovado matematicamente, não é mais sustentável para 2/3 da humanidade. Isto quer dizer: todas as alternativas energéticas que se estão tomando na construção de uma Arca de Noé salvadora do sistema imperante, escamoteiam o cerne da questão. Elas, tomadas em si, não nos salvarão do dilúvio. Dentro de dezenas de anos vão mostrar sua ineficácia o que vai provocar a maldição da humanidade sobre a nossa geração. Dir-se-á: "vocês foram alertados e sabiam mas preferiram a cegueira voluntária e a nossa perdição para garantir o curso que lhes dava vantagens".
     O memorando Bush-Lula prevê uma produção massiva de etanol seja de cana (Brasil) seja de milho (USA). Atualmente o Brasil produz 17,5 bilhões de litros de álcool. Com a utilização de 90 milhões de hectares agricultáveis poderá chegar a produzir 110 bilhões, podendo controlar 50% do mercado mundial. É incompleta a afirmação que é uma energia limpa. É limpa apenas no uso em carros. Mas em seu processo de produção é poluente porque inclui os fertilizantes, o transporte, a estocagem, as máquinas e a liberação de nitrogênio que contamina poderosamente as águas e, transformado em ácido nítrico, produz chuvas ácidas, danosas para as florestas. Oxalá não ocorra no Brasil o que ocorreu na Malásia: 87% de desflorestamento, expulsões de camponeses e terras roubadas à produção de alimentos.
     Para nos salvar importa redesenhar todo o processo produtivo, adequado a cada ecosistema, valorizando tudo o que a humanidade inventou para sobreviver, dos sistemas agropastoris e agroecológicos até à moderna nanotecnologia com sua imensa possibilidade de resfriar o planeta.

Fonte: Leonardo Boff - Teólogo

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sábado, 8 de setembro de 2007

Biodiversidade desvalorizada

Pesquisa indica que livros e currículos de escolas do ensino médio de Belém (PA) não contemplam conceitos de biodiversidade e de desenvolvimento sustentável com base em questões ambientais da Amazônia
 
     Embora a biodiversidade seja uma das maiores riquezas e o desenvolvimento sustentável o maior alvo das políticas públicas na Amazônia, os conteúdos ministrados sobre esses dois assuntos em escolas do ensino médio de Belém (PA) têm características universais, desvinculadas das questões ambientais regionais.
     Essa é a principal conclusão do estudo A biodiversidade e o desenvolvimento sustentável nas escolas do ensino médio de Belém, de autoria de Maria de Jesus da Conceição Ferreira Fonseca, professora do Programa de Mestrado em Educação do Centro de Ciências Sociais e Educação e coordenadora do Núcleo de Estudos em Educação Científica, Ambiental e Práticas Sociais, ambos da Universidade do Estado do Pará (Uepa).
     Segundo a autora, sem foco nos estudos científicos produzidos na região amazônica sobre esses temas, os livros didáticos e as propostas curriculares não favorecem o estabelecimento de uma consciência de valorização dos ecossistemas amazônicos.
     O trabalho, publicado na revista Educação e Pesquisa, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, analisou dez livros didáticos e oito propostas curriculares referentes à disciplina de biologia. A pesquisadora entrevistou ainda 24 professores e 719 alunos do 3º ano do ensino médio, etapa final da educação básica.
    A pesquisadora aplicou dois questionários, um dirigido aos professores, que investigou as práticas pedagógicas relacionadas aos temas biodiversidade e desenvolvimento sustentável, e o outro dirigido aos alunos, no qual foram levantadas informações sobre escolarização e conhecimentos sobre esses assuntos.
     "A idéia do estudo não foi quantificar o grau de conhecimento de alunos e de professores frente a esses conceitos, uma vez que foram analisadas escolas públicas e particulares com modalidades distintas de ensino", disse Maria de Jesus à Agência Fapesp.
    "Mas, com base nas informações coletadas, de modo geral as discussões sobre biodiversidade e desenvolvimento sustentável não estão inseridas nas propostas pedagógicas como uma estratégia de conhecimento dos problemas regionais da Amazônia", explica.
    Segundo ela, o conceito de biodiversidade, por exemplo, apresenta limitações entre alunos e professores por estar mais voltado ao número de espécies vegetais e de animais da floresta, enquanto o trabalho da pesquisadora aponta que, além de se referir à variedade de formas de vida presente na terra (diversidade de espécies), a definição de biodiversidade também deve levar em consideração os genes que constituem as espécies (diversidade genética) e os ecossistemas dos quais elas fazem parte (diversidade ecológica).
 
     Plano secundário
     Com relação ao desenvolvimento sustentável, o estudo teve como base o conceito presente no Relatório de Brundtland, lançado em 1987 pela Comissão Mundial sobre Ambiente e Desenvolvimento, que o define como "aquele que atende às necessidades das gerações presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazer suas próprias necessidades".
     "Apesar de não haver uma definição única para essas expressões, menos de 5% dos alunos conseguiram descrever com clareza o conceito de desenvolvimento sustentável na perspectiva do relatório, que é o conceito mais aceito e difundido pelos pesquisadores da área. Isso mostra que esses assuntos ainda estão muito distantes das abordagens de ensino na cidade de Belém", lamentou Maria de Jesus.
     O estudo revelou ainda que esses temas, mesmo difundidos nos livros didáticos, não ganham destaque por serem apresentados em planos secundários, como em boxes informativos.
     Nas publicações analisadas, os conceitos adotados sobre a importância da biodiversidade e as causas de seu declínio não contemplaram uma abordagem mais abrangente sobre o tema, relacionada a aspectos sociais, culturais, políticos e econômicos.
     "Isso se torna evidente quando os livros centram a discussão no argumento ecológico, em vez de tratar da sua importância como estratégia para o desenvolvimento sustentado. Por outro lado, a maioria dos estudantes disse ter tido o primeiro contato com esses dois conceitos no âmbito escolar, e não na mídia, mostrando que a escola, assim como as instituições de ensino e pesquisa, é o espaço mais apropriado para a elaboração de estratégias para a conservação da natureza", concluiu.
Autor: Thiago Romero - Agência Fapesp - Jornal da Ciência

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É preciso entender a profundidade das mudanças que estão ocorrendo em nossos padrões de produção

     As relações de interdependências entre matriz energética e desenvolvimento econômico são complexas e insuficientemente compreendidas. Para exemplificar esse problema, basta lembrar que, durante o século XX, as energias fósseis, em particular o petróleo, constituíram o principal pilar da oferta mundial de energia primária, por serem abundantes e capazes de múltiplas aplicações. Porém, os custos de prospecção e extração do petróleo, e dos demais combustíveis fósseis, têm ultimamente apresentado intenso aumento; além disso, a distribuição mundial das reservas de petróleo é desigual, concentrando-se no Oriente Médio, um espaço geopolítico bastante instável, o que abre a possibilidade de haver, em médio prazo, efeitos macroeconômicos indesejáveis para os governos. É necessário lembrar ainda a emergência do tema do aquecimento global, que, por mais permeado que esteja com sérias controvérsias científicas, já se presta a estimular uma revisão dos parâmetros das políticas energéticas. Esses fatores são fontes de incertezas e, conseqüentemente, alteram as expectativas quanto ao futuro da matriz energética global.
 
Extração de petróleo.
 
     Nesse contexto, novas tecnologias como as células de hidrogênio só serão de fato implementadas em larga escala quando se mostrarem técnica e economicamente sedutoras; por outro lado, as alternativas já testadas representam soluções críveis para governos e empresários. O programa nuclear, por exemplo, que muitos consideravam ultrapassado, voltou a se tornar uma opção atraente, fazendo com que o número de centrais planejadas ou em construção está crescendo nesses últimos anos. Já a experiência brasileira com etanol oferece uma solução energética capaz de substituir parte da demanda por gasolina. Tendo em visto o lugar dos automóveis em nossa civilização, a centralidade das montadoras na economia global e as perspectivas de diminuição da oferta de petróleo no futuro próximo, não é de se espantar que o etanol se posicione como alternativa energética estratégica, gerando um conjunto de expectativas que esse breve artigo procura abordar a partir da recente onda de investimentos estrangeiros no setor sucroalcooleiro brasileiro.
     Desde 2003, ano em que os preços do petróleo começaram a aumentar de modo acentuado, a cadeia de açúcar e álcool brasileira passa por um profundo processo de reestruturação liderado por grupos nacionais e estrangeiros. As formas de entrada dos capitais estrangeiros são variadas e os interesses econômicos envolvidos são heterogêneos. Tradicionais multinacionais do agronegócio, como a francesa Louis Dreyfus, estão reforçando sua participação no setor através de aquisições de usinas brasileiras. Tal estratégia, facilitada pela fragmentação da indústria sucroalcooleira, permite não só que as organizações que já estão no setor reforcem suas posições na indústria, mas também que as empresas que até então não participavam desse negócio entrem rapidamente no setor, transformando-se em atores privilegiados na construção da cadeia global de suprimentos de etanol. Cabe observar que essa estratégia é pouco arriscada, pois, além de essas empresas possuírem competências operacionais no comércio de "commodities", elas já desenvolveram um bom conhecimento do ambiente de negócio brasileiro. Ademais, os investimentos realizados são simples e de fácil integração às suas áreas de atuação.
 
Refinaria de etanol
 
     Outra estratégia privilegiada pelas firmas multinacionais é o estabelecimento de parcerias com grupos brasileiros . No caso de empresas que já atuam no comércio internacional de açúcar e álcool, a exemplo da parceria entre a "trading" brasileira Crystalsev e a gigante americana Cargill, essa opção permite compartilhar recursos e aumentar a escala com a expectativa de se firmar como atores estratégicos da construção do mercado global de etanol. Diferentemente, grupos estrangeiros ainda não inseridos no tecido agroindustrial brasileiro, como é o caso de "tradings" japonesas ou chinesas, podem preferir esse tipo de estratégia no intuito de minimizar os riscos relacionados à falta de conhecimento das regras e práticas empresariais vigentes no Brasil. Para as usinas brasileiras, por outro lado, alianças com grupos estrangeiros representam uma boa oportunidade de acessar os mercados internacionais. Como diversos países, na Ásia e em outras partes do mundo, ensejam estabelecer medidas para adicionar algumas percentagens de álcool anidro à gasolina, é provável que esse tipo de relações empresariais se intensifique em curto prazo.
     Há ainda o caso das empresas de países industrializados que assinaram o protocolo de Kyoto, o acordo internacional sobre redução das emissões dos gases que provocam o efeito estufa: elas provavelmente serão estimuladas a investir na cadeia de etanol brasileiro. É, por exemplo, o caso do Japão, que, através de uma parceria entre o grupo Mitsui e a Petrobras, está buscando garantir uma fonte de suprimento confiável. Um aspecto interessante dessa relação empresarial é que ela enfatiza o desafio logístico do comércio internacional de etanol, uma dimensão crucial para o suprimento global e a credibilidade da cadeia sucroalcooleira brasileira..
     Nesse movimento de diversificação dos interesses estrangeiros na cadeia sucroalcooleira brasileira, a entrada de fundos de investimentos representa uma novidade muito recente. Mais do que novos investimentos num setor em plena expansão, as investidas desse tipo de organizações sinalizam uma mudança nas expectativas. Com efeito, quando ícones do mercado financeiro global decidem apostar em ativos que até então ignoravam, ou quando fundos são levantados com facilidade para investir na aquisição de usinas num país em desenvolvimento, isso reflete certa confiança no futuro e nos lucros que essas decisões poderão auferir. É muito provável que a ampla liquidez internacional que marcou os mercados financeiros globais até a crise atual do mercado de "subprime" incentivou esse tipo de operações. Mas só isso não é suficiente para justificar a entrada de fundos de investimentos estrangeiros na cadeia sucroalcooleira brasileira, e não se pode negar que todo esse aporte de capital é um sinal de que as expectativas quanto ao futuro da matriz energética global estão mudando.
     Os impactos da crescente presença de firmas multinacionais e interesses financeiros estrangeiros na cadeia sucroalcooleira brasileira ainda carece de análises. No entanto, podemos assinalar alguns aspectos que poderão surgir desse processo. Em primeiro lugar, as exportações de álcool, que deslancharam a partir de 2004, devem se intensificar, ainda que importantes compradores iniciais como os Estados Unidos ou a Índia diminuam suas importações ou novos concorrentes apareçam. A implementação do protocolo de Kyoto, as condições de oferta de petróleo e as possibilidades de adicionar etanol à gasolina sem mudanças tecnológicas específicas são forças suficientes para estimular o crescimento da demanda global por etanol brasileiro.
     No plano interno, os investimentos estrangeiros devem acelerar o processo de reestruturação produtiva já em curso. Desde 2005, por exemplo, a recente onda de aquisição já envolveu mais de 20 usinas, das quais mais da metade foram compradas por grupos estrangeiros. Como a indústria sucroalcooleira é ainda bastante fragmentada, o processo de consolidação deve perdurar durante certo tempo. Se por um lado esse processo tende a impulsionar investimentos em usinas de maiores escalas produtivas, a concentração industrial que pode resultar desse processo traz riscos para os consumidores brasileiros. Com efeito, o aumento da escala produtiva e as características do etanol facilitam a implementação de práticas cooperativas e o poder de mercado das empresas. Somada à já concentrada distribuição de combustáveis para automóveis, o processo de consolidação da indústria de etanol pode resultar em preços abusivos e perdas para os consumidores.
     A presença crescente de firmas multinacionais na cadeia sucroalcooleira acarreta não somente uma redefinição da relação Estado-economia no que se refere à soberania e à segurança energética do Brasil, mas também modifica os arranjos institucionais e organizacionais que sustentam a cadeia produtiva. A centralidade de padrões internacionais no que tange às práticas ambientais, comerciais e, talvez, trabalhistas deverá se intensificar, adicionando novos parâmetros ao processo de reestruturação em curso. De modo concomitante, esse processo se tornará mais complexo na medida em que a teia de organizações com possibilidade de atuar na elaboração e definição dos padrões se tornará qualitativamente mais heterogênea. Com efeito, a internacionalização da cadeia sucroalcooleira brasileira lida com a crescente presença de firmas transnacionais desejando estabelecer regras capazes de minimizar as incertezas quanto à oferta de etanol no futuro. Além do mais, essa internacionalização incorpora novos atores nos arranjos organizacionais prevalecentes – sejam eles associações de produtores agrícolas estrangeiros, consumidores, meios de comunicação, ONG's internacionais, técnicos de governos estrangeiros e de instituições globais etc. Como seus valores, interesses e crenças não coincidem nem entre si, nem com os atores brasileiros, os jogos políticos, econômicos e sociais que estruturam o ambiente no qual se discutam os atributos dos futuros padrões do comércio internacional de etanol são incertos e marcados por relações de poder assimétricas. Nesse sentido, cabe perguntar se as diferentes organizações que representam atualmente os interesses brasileiros envolvidos na cadeia sucroalcooleira, em particular os sindicatos de trabalhadores rurais, terão capacidades de participar das agendas de discussão que definirão os padrões internacionais e exercer vozes efetivas quando for necessário.
      A mudança de expectativas em relação ao futuro da matriz energética global e a maior presença de firmas estrangeiras na cadeia sucroalcooleira brasileira representam novas e poderosas forças que estão redesenhando a dinâmica do mundo agrário no país. A complexidade desse processo mereceria maiores conhecimentos para entender, por exemplo, a difusão da lógica energética no mundo rural, as conseqüências sociais e econômicas dos investimentos estrangeiros em usinas e terras brasileiras ou o papel das políticas públicas na regulação desses processos. Antes de enaltecer o papel estratégico dos heróis do agronegócio sucroalcooleiro ou criticá-los de modo convencional, precisamos entender de fato o que essa mudança de expectativa energética implica para o Brasil.
 
Fonte: Ambiente Já / Por Georges Flexor, Agencia Carta Maior
Georges Flexor é professor adjunto do Instituto Multidisciplinar IM/UFRRJ e pesquisador do Observatório de Políticas Públicas para a Agricultura OPPA/CPDA.

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sábado, 1 de setembro de 2007

Para onde vão os plásticos

     A verdadeira razão pela qual os aterros sanitários não estão cheios de plástico é que eles vão parar em outro lugar: no mar. Eles são levados pelas correntes marítmas e acabam se acumulando em alguns pontos específicos dos oceanos. São as regiões onde as correntes formam uma lenta espiral que vai capturando todos os dejetos flutuantes, como grandes ralos do mar. Elas estão no mapa abaixo. Essas áreas, de calmaria, chamadas giros subtropicais, são evitadas pelos navegantes. O lixo fica ali rodando lentamente, no meio dos oceanos, para sempre.
 
     Quem descobriu essas lixeiras marítmas foi o capitão Charles Moore (na foto). Há 10 anos ele estuda essas áreas. Descobriu que 80% do lixo no mar foi lançado da terra. São levados pelo vento, ou carregados pelos rios e esgotos pluviais que deságuam no mar. Moore avaliou que o giro subtropical do Pacífico já tem 3 milhões de toneladas de plástico. E vai continuar acumulando boa parte do que descartamos. Porque todo o plástico fabricado desde que a humanidade desenvolveu esse tipo de material, em meados do século passado, continua aí, em algum lugar do ambiente. Ele leva milhares de anos para se degradar. Ninguém sabe ao certo.
 
 

     O papel do plástico no lixo
     Ao contrário da crença popular, o plástico contribui com menos de 20% do volume de lixo encontrado nos aterros. É o que conta Alan Weisman em seu livro "O mundo sem nós". Segundo o arqueólogo americano William Rathje, da Universidade de Stanford, que pesquisa há décadas os aterros sanitários, o plástico ocupa pouco espaço no lixo porque pode ser mais comprimido que outros tipos de refugo. O grosso do que está nos aterros, diz Rathje, são detritos de construções e produtos de papel. Os jornais não se decompõem facilmente quando enterrados longe do ar e da água, ao contrário do que também pensa a crença popular.
 
     As pessoas imaginam que os plásticos são o pior. E isso é verdade fora dos aterros. Um jornal jogado na rua se rasga ao sol e se dissolve na chuva. É biodegradável. Mas não sob a terra. "É por isso que temos rolos de papiros do Egito com 3 mil anos", diz Rathje. "Nós tiramos dos aterros jornais de 1930 perfeitamente legíveis. Eles permanecerão lá por mais 10 mil anos." A solução, naturalmente, é reciclar tanto o plástico quanto os papéis.
 
 
 
Autor: Alexandre Mansur - Blog do Planeta
 
 
Leia também o texto original do capitão Charles Moore:
 

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Telefone celular pode acelerar divisão das células

O uso do telefone celular por apenas cinco minutos pode ser o suficiente para acelerar a divisão das células, estimam pesquisadores israelenses.

     A pesquisa, publicada na revista New Scientist, analisou a exposição de células humanas e de ratos à radiação eletromagnética emitida à freqüência similar a de um telefone celular, mas a um décimo de sua potência.
     Cinco minutos depois, os cientistas observaram sinais da enzima ERK1/2, que estimula a divisão celular. Os estudiosos explicam que a divisão celular é um processo que ocorre naturalmente quando há crescimento ou renovação dos tecidos, mas também pode provocar câncer.
 
     Aquecimento
     O câncer se desenvolve quando o organismo não consegue interromper ou prevenir a reprodução excessiva das células, provocando o aparecimento do tumor.
     Os pesquisadores salientaram que uma das grandes descobertas do estudo foi ter observado que a divisão celular não foi provocada pelo aquecimento da região submetida à radiação eletromagnética.
     "É importante ressaltar que as células não ficaram inertes diante de radiações não-termais. Nós usamos níveis de radiação cerca de um décimo mais fracos dos produzidos por um celular normal e as mudanças observadas claramente não foram causadas pelo aquecimento", explicou o líder da pesquisa, Rony Seger, pesquisador do setor de oncologia do Instituto de Ciência Weizmann, em Israel.
     Pesquisas anteriores sugeriram que o aquecimento do celular, que pode esquentar quando usado, poderia aumentar os riscos de câncer.
 
Fonte: BBC Brasil - Terra Notícias

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sexta-feira, 24 de agosto de 2007

A importância da Auditoria Ambiental no combate ao escurecimento global

      O "escurecimento global" ou "global dimming" têm sido o novo alvo de debate entre cientistas, meteorologistas, ONGs e governos de todos os continentes. O fenômeno vem sendo observado e catalogado desde a década de 50.
 
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      Vários estudos baseados em redes de estações radiométricas mostram que durante o período 1964-1992 se observa um escurecimento global significativo em amplas regiões da África, Ásia, Europa e América da Norte, com uma redução média de aproximadamente 2% (dois por cento) por década.
         O fato se deve a redução da irradiação solar global, ou seja, o fluxo de radiação solar que chega a superfície terrestre, tanto pelos raios solares quanto pela radiação difusa dispersada pelo céu e pelas nuvens.
Acredita-se que o escurecimento global tem sido causado por um aumento de partículas de aerossóis na atmosfera terrestre, como o carbono negro, ocasionado pela ação humana.
        O carbono negro trata-se de uma forma impura de carbono produzida durante a combustão incompleta de combustíveis fósseis, madeira (formando fuligem) ou de biomassa. Essa variação do CO2 pode ser encontrada em aerossóis, sedimentos e solos.
       Os aerossóis por serem partículas suspensas num gás, com alta mobilidade inetercontinental, além de outros particulados, absorvem energia solar e refletem a luz do Sol de volta para o espaço. Esse efeito variava com a localização, mas sabe-se que a nível mundial a redução foi da ordem de 4% (quatro por cento) ao longo das décadas de 60 à 90. Essa tendência inverteu-se em 1990, interferindo no ciclo hidrológico por via da redução de evaporação, originando um período de seca em várias regiões.
      O aumento da poluição acarreta a produção de maiores quantidades de particulados o que dá origem à formação de nuvens com um maior número de pequenas gotículas (isto é, a mesma quantidade de água encontra-se dispersa num maior número de gotículas). As gotículas mais pequenas tornam as nuvens mais refletoras, aumentando assim a quantidade de luz solar que é reflectida de volta para o espaço e diminuindo aquela que atinge a superfície terrestre.
       As nuvens interceptam tanto o calor proveniente do sol como o calor radiado pela Terra. Os seus efeitos são complexos e variam com o tempo, localização e altitude. Geralmente, durante o dia, a intercepção da luz solar é predominante, resultando num efeito de arrefecimento; durante a noite a re-radiação do calor para a Terra, abranda a perda de calor desta.
      A trilha que leva a descoberta do Escurecimento Global começou 40 anos atrás em Israel, com um trabalho de um jovem imigrante inglês chamado Gerry  Stanhill. Com formação em biologia, o trabalho de Gerry era organizar o esquema de irrigações, e para isso ele precisava medir a intensidade do brilho do sol sobre Israel.
      Nesse trabalho era importante medir a irradiação solar, porque esse era um fator importante que determina a quantidade de água que as plantações precisam.
      Durante um ano, Gerry coletou dados referentes a medição da luz solar. Os resultados foram os esperados, e usados para ajudar a projetar o sistema de irrigação de Israel.
Vinte anos mais tarde, nos anos 80, Gerry decidiu repetir sua pesquisa para verificar se aqueles dados ainda eram válidos. Ao fazer a repetição da análise feita no passado, ele ficou surpreendido, pois descobriu que houve uma grande diminuição na luz do Sol, baseado na quantidade de radiação deste em Israel.
      Ao se comparar as medições realizadas no início dos anos 50 com as medições atuais o que se vê é uma redução de 22% (vinte e dois por cento) da luz solar. Assim, quando Gerry publicou esses resultados, eles foram ignorados, pois os cientistas acreditavam que se isso realmente fosse verdade, os israelitas deveriam estar congelando.
      Mas acontece que Gerry não foi o único cientista a perceber a diminuição da luz solar. Na Alemanha, a jovem Beate Liepert graduada em climatologia descobriu que o mesmo parecia estar acontecendo também nos Alpes da Bavária.
      Alemanha, Israel, mas e no resto do mundo? Com trabalhos independentes, Liepert e Stanhill começaram a pesquisar publicações, períodicos e dados meteorológicos de todo o mundo. E ambos encontraram a mesma história extraordinária! No período compreendido entre os anos 50 e 90,  o nível de energia solar atingindo a superfície da  Terra tinha caído 9% (nove por cento) na Antártida, 10% (dez por cento) nos Estados Unidos, quase 30% (trinta por cento) na Rússia e cerca de 16% (dezesseis por cento) em algumas partes das Ilhas Britânicas.
      Os cientistas se recusaram inicialmente a aceitar esses dados, pois acreditavam que se havia redução da irradiação solar sobre a superfície da Terra, isso deveria deixar o nosso planeta mais frio Assim, eles sabiam que na verdade ocorria o inverso, o aquecimento global. Esse fenômeno que era resultante do dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa que emitimos,  já que seguram ainda mais calor na atmosfera terrestre.
 
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      No entanto, na Austrália, os cientistas e biólogos Michael Roderick e Graham Farqurar, da Universidade Nacional da Austrália, descobriram outro resultado paradoxal: um declínio mundial em taxa de evaporação diária. Eles chegaram a essa conclusão  trabalhando com a Taxa de Evaporação de Panela, que nada mais é que a medição da quantidade de água que precisa-se colocar todos os dias em um local com água para ele voltar ao nível do dia anterior. Verificaram que esta taxa estava diminuindo.
      Por décadas, ninguém prestou muito atenção nas taxas de evaporação diária. Mas nos anos 90, os cientistas perceberam um fato bastante estranho. O nível de evaporação estava caindo.Como pode a taxa de evaporação cair, se a temperatura da Terra está subindo? Descobriu-se, então, que o aumento da temperatura não era o fator mais importante na taxa diária de evaporação, mas sim a energia dos fótons da luz solar incindindo na superfície que leva as moléculas de água para a atmosfera. Chegou-se, assim, a uma conclusão estarrecedora: se a taxa de evaporação está diminuindo pode ser porque a luz solar está diminuindo.
      Mas o que está causando isto? Na busca pela resposta, um dos maiores climatologistas do mundo, Veerabhadran Ramanathan, da Universidade da Califórnia, foi procurar a resposta na Ilhas Maldivas, que são na verdade milhares de ilhotas no oceano Índico. Estas ilhotas são desertas, mas na verdade, as do norte são atingidas por uma corrente de ar poluído (que tem 3 quilômetros de altura) vinda da Índia, e as do sul são atingidas por uma corrente de ar puro e limpo, vinda da Antártica. Assim, a poluição poderia ser a responsável. Queimar combustível não produz somente a poluição invisível, responsável pelo aquecimento global, mas também produz a radiação visível, pequenas partículas de fuligem e outros compostos. Depois de quatro anos de pesquisas, os resultados foram publicados: As ilhas do norte, devido as nuvens de poluição de 3 km de espessura, recebiam 10% (dez por cento) menos energia que as do sul. Os pesquisadores esperavam um resultado de 0,5 a 1% (meio a um por cento), mas ele foi 10 (dez) vezes maior! As nuvens estavam tornado-se espelhos gigantes que além de refletir de volta os raios solares, podiam alterar o padrão de chuvas globais. Isto é realmente um desastre!
      Na verdade, o escurecimento global tem mascarado a verdadeira força do aquecimento global. A Terra pode ser bem mais vulnerável ao efeito estufa do que esperávamos. Até agora, as duas forças estão equivalente, mas daqui a pouco, a curva do aquecimento global vai subir, e a do escurecimento global não vai conseguir acompanhá-la. Em 100 anos as temperaturas subiram 0,6 ºC, assim o aquecimento global está vencendo o escurecimento.
      Diante desse cenário de intempéries é necessário e urgente que a sociedade requeira uma tomada de posição. Tanto o escurecimento quanto o aquecimento global tratam de mudanças climáticas de efeito letal ou mortal. Assuntos relativamente novos que muitos cientistas até recentemente se recusavam a acreditar que existiam.
Há dois anos, a maioria dos cientistas nunca tinha ouvido falar sobre o fenômeno do Escurecimento Global. Agora acreditam, entretanto, que pode significar que todas as previsões sobre o futuro do nosso clima podem estar erradas.
A série da BBC de Londres exibida em 2005, transmitida pela Discovery Channel, tentou através do documentário "O Mundo nas Sombras" alertar a sociedade para os problemas que vamos em breve enfrentar; entretanto, já começamos à sentí-lo, embora em níveis ainda "pacíficos".
      É aí que surge como uma das medidas de combate ou de pelo menos freamento ao aquecimento e ao escurecimento global, a Auditoria Ambiental.
A auditoria ambiental é um instrumento de múltiplos propósitos e um dos mais antigos que se conhece. Entretanto, ela apenas ganhou repercusão e começou a crescer em meados do século XX como parte dos trabalhos de avaliação de desastres de grandes proporções, envolvendo explosões e vazamentos seguidos de contaminações em fábricas, refinarias, gasodutos, terminais portuários etc. Foi a partir da década de 70 que esse importante instrumento de avaliação e controle de impactos ambientais se tornou autônomo na gestão ambiental, com o objetivo de averiguar o cumprimento das leis ambientais, cada vez mais rigorosas, principalmente após a Conferência das Nações Unidas de Estocolmo em 1972.
     Inicialmente, as auditorias ambientais buscavam basicamente assegurar a adequação das empresas às leis ambientais dentro de uma postura defensiva. Procuravam identificar possíveis problemas relacionadaos com multas, indenizações e outras penalidades ou restrições contidas nas diversas leis federais, estaduais e locais. Com o passar do tempo, novas considerações foram sendo acrescentadas e, com isso, a auditoria ambiental tornou-se bastante elástica, significando uma diversidade de atividades de caráter analítico voltada para identificar, averiguar e apurar fatos e problemas de caráter ambiental de qualquer magnitude e com diferentes finalidades.
      Com a utilização sistemática por algumas empresas da auditoria no campo ambiental, esta ferramenta também passou a ser cogitada como instrumento de política pública para o controle e monitoramento das atividades industriais potencialmente poluidoras.
     Com os constantes acidentes ocorridos nas indústrias químicas, este setor passou a necessitar de um instrumento eficaz para avaliação da segurança das plantas fabris.  A partir daí, a legislação relacionada a segurança e saúde do trabalhador se tornava mais restrita e impunha sanções cada vez maiores. As organizações sindicais, nos países desenvolvidos, passarama a exercer pressões significativas e a prevenção de acidentes de trabalho tornou-se foco de reivindicações. Estes acidentes trouxeram à tona uma parte do problema. As conseqüências de um grave acidente, normalmente geravam danos ambientais muitas vezes irreversíveis.
 
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      Se por um lado a legislação trabalhista se desenvolvia, o mesmo ocorria com aquela relativa ao meio ambiente. Os setores produtivos começaram a responder às novas exigências, que decorriam da maior complexidade e escala de produção, com programas voluntários como o deselvolvido pela indústria química e através da "Atuação Responsável", visando o acompanhamento do processo produtivo e a criação de padrões de referência para a operação dessas plantas.
      Há, portanto, uma ligação estreita entre o meio ambiente e as atividades de controle de processo, saúde ocupacional e segurança na gestão empresarial.
      Partindo-se desse preposto, deve-se entender auditoria ambiental como um processo de exame ou avaliação sistemática e independente que identificará através da investigação documentada, fatos, procedimentos, documentos e registros relacionados ao meio ambiente, apresentando-os aos contratantes da auditoria, que caso tenha interesse e recursos, tome as medidas necessárias à correção das não-adequações detectadas.
      Diante do retrato de catástrofes climáticas que nos aponderam, mediante ameças do escurecimento e aquecimento global, a auditoria ambiental surge como uma ferramenta básica para identificação da saúde ambiental de empresas, indústrias, usinas e até mesmo fazendas. Dentre os inúmeros benefícios, podemos citar:
- a identificação e registro das conformidades e das não-conformidades com a legislação, com regulamentações e normas e com a política ambiental da empresa (caso exista);
-prevenção de acidentes ambientais;
-melhor imagem da empresa junto ao público, à comunidade e ao setor público;
-provisão de informação à alta administração da empresa, evitando-lhe surpresas;
-assessoramento aos gestores na implementação da qualidade ambiental na empresa;
-assessoramento à alocação de recursos (financeiro, tecnológico, humano) destinados ao meio ambiente na empresa, segundo as necessidades de proteção do meio ambiente e as disponibilidades da empesa, descartando pressões externas;
-avaliação, controle e redução do impacto ambiental da atividade;
-minimização dos resíduos gerados e dos recursos usados nas empresas;
-promoção do processo de conscientização ambiental dos empregados;
-produção e organização de informações ambientais consistentes e atualizadas do desempenho ambiental da empresa, que podem ser acessadas por investigadores e outras pessoas físicas ou jurídicas envolvidas nas operações de financiamento e/ou transações da unidade auditada;e
-facilidade na comparação e intercâmbio de informações entra as unidades da empresa.
      Assim, podemos dizer que o principal propósito da auditoria ambiental, dentro do cenário climático que nos aterroriza, é o de assegurar que essas melhorias planejadas para o desempenho ambiental estejam efetivamente sendo alcançadas, e que as empresas não se exponham a riscos desnecessários associados a danos e a dispendiosos processos resultantes de poluição causada por elas.
      No Brasil, contrariando tendência internacional, foram regulamentadas leis que tornam obrigatória sua aplicação em alguns setores produtivos de maior potencial poluidor. A adoção destas regulamentações não foi discutida com o setor empresarial. Em conseqüência, a efetividade destas leis está sujeita a controvérsias por parte do setor empresarial que a compara com a aplicação voluntária no resto do mundo onde a regulamentação da Auditoria Ambiental fora precedida de debate junto ao setor produtivo e a sociedade.
      A primeira tentativa de implementar uma legislação referente à Auditoria Ambiental no País, ocorreu no Rio de Janeiro (Lei nº 1.898, de 26 de novembro de 1991). Posteriormente, alcançou também os Estados de Minas Gerais (Lei n° 10.627/1992) e Espírito Santo (Lei n° 4.802/1993).
      As leis aprovadas nos estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais têm escopo similar diferenciando-se apenas no que tange a freqüência da aplicação e aos tipos de atividade cobertos em decorrência do seu impacto para o Estado. A auditoria ali requerida aplica-se aos aspectos técnicos do desempenho ambiental das empresas, nas demais leis o escopo da auditoria é ampliado abarcando também seus aspectos gerenciais, em alguns casos é requerida à publicação no relatório de propostas para mitigar as emissões e os riscos de acidentes ambientais.
      Na esfera da União, a Lei n° 9.966 de 28 de abril de 2000, que dispõe sobre a prevenção, o controle e a fiscalização da poluição causada por lançamento de óleo ou outras substâncias nocivas ou perigosas em águas sob jurisdição nacional, estabelece que as entidades exploradoras de portos organizados e os proprietários ou operadores de plataformas e suas instalações de apoio deverão realizar auditorias ambientais bianuais, independentes, com o objetivo de avaliar o sistema de gestão e controle ambiental em suas unidades..
      A Resolução Conama nº 306, de 5 de julho de 2002, estabelece que o relatório de auditoria e o plano de ação devem ser apresentados a cada dois anos ao órgão ambiental competente para incorporação ao processo de licenciamento ambiental da instalação auditada. O plano de ação deverá contemplar ações corretivas para as não-conformidades apontadas no relatório.
      Ciente de que pode haver "mascaramento" nos resultados da auditoria compulsória, identifica-se como essencial a criação de mecanismos que incorporem nas empresas o conceito de que qualidade ambiental é estratégica para sua permanência no mercado e pode lhe trazer benefícios.
      É pouco provável que a legislação sozinha consiga produzir melhorias permanentes no desempenho ambiental da indústria e comércio, ou nas atividades do público em geral. Afinal, compete à comunidade empresarial gerenciar as mudanças necessárias para assegurar a redução da poluição ambiental e promover o desenvolvimento sustentável a longo prazo.
      A experiência internacional demonstra que a aplicação voluntária de auditoria ambiental está associada à implementação de uma política de proteção ambiental na empresa. Enfim, é importante demonstrar que a aplicação efetiva das auditorias ambientais no País decorrerá não apenas da pressão do mercado e de exigências legais, mas do vislumbramento, por parte da direção das empresas, da possibilidade de obtenção de vantagens econômicas, administrativas, de mercado e de relacionamento com as autoridades legais e com a comunidade.
       Entretanto, sua eficácia, como instrumento empresarial de proteção efetiva do meio ambiente, requer uma legislação rígida no que tange à regulamentação de indicadores setoriais e regionais de desempenho ambiental e a aplicação de uma gestão pró-ativa em relação ao meio ambiente pelas empresas.
      Diante da catástrofe climática que nos espera, é necessário que a sociedade clame pelas mudanças industriais e empresariais, referentes à diminuição da poluição, adotando medidas que tenham o efeito de verificação e avaliação constantes em suas estruturas, de modo que haja a devida correção nas falhas decorrentes de riscos ambientais.
      Em 2040, o nosso Planeta poderá estar 4ºC mais quente. A mudança radical do clima poderá levar a uma grande seca, principalmente na Bacia Amazônica. Isso tornará a floresta insustentável, levando às queimadas decorrentes do calor, transformando-a em savana, e depois em deserto. Com os incêndios na Floresta Amazônica, isso levará a liberação de milhões de toneladas de dióxido de carbono à atmosfera, aumentando ainda mais o aquecimento global.
      O aquecimento de 10º C no extremo norte do Planeta pode lançar um reserva natural de gases de efeito estufa maior do que todas as reservas de óleo e carvão existentes no mundo. São 10 trilhões de toneladas metano concetrados abaixo dos oceanos sob a forma de hidratos de metano (que é o que mantém o metano sob a forma congelada no fundo do oceano) que poderão se desestabilizar com o aquecimento, e serem liberados na atmosfera.
     Quando chegarmos a esse ponto, o que quer que façamos para controlar nossas emissões pode ser tarde demais.  Dez mil bilhões de toneladas de metano, um gás de efeito estufa 21 vezes mais forte do que o dióxido de carbono podem ser lançados na atmosfera. O clima da Terra ficaria completamente descontrolado, chegando a temperaturas nunca antes vistas em 4 bilhões de anos.
     Mas isso não é uma predição! É um alerta! É o que vai acontecer se não cuidarmos da poluição e não fizermos nada em relação aos gases de efeito estufa. E uma dessas alternativas de avaliação periódica de diminuição é a auditoria ambiental, que se não for aplicada de forma voluntária pelas empresas e indústrias, deve ser adotada de forma compulsória pelos governos.
 
Bibliografia:
BARBIERI, José Carlos. Gestão Ambiental Empresarial. São Paulo: Saraiva, 2004.
D' AVIGNON, Alexandre, Emílio Lebre La Rovere (Coordenador). Manual de Auditoria Ambiental. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2001.
DONAIRE, Denis. Gestão Ambiental na Empresa. 2º ed. São Paulo: Atlas, 2007.
Global Dimming - Tragic End of Humanity. Documentário BBC produzido em 2005.
MALHEIROS, Telma M., Análise da Efetividade da Avaliação de impactos Ambientais como Instrumento da Política Nacional do Meio Ambiente: sua Aplicação em Nível Federal. Tese de Mestrado. Rio de Janeiro: COPPE/UFRJ, 1995.

Autora: Taís Carolina Seibt

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quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Banho aquecido com latinhas

Aquecedor à base de energia solar feito de latas de alumínio é opção para população de baixa renda

     Um painel de latinhas de alumínio que funciona como aquecedor de água está sendo desenvolvido pelo Núcleo de Pesquisa do Centro Universitário de Itajubá (Universitas), em Minas Gerais. O equipamento é uma alternativa para famílias de baixa renda, pois usa energia solar e permite o reaproveitamento de latas de alumínio. O novo aparelho não prejudica a saúde humana e o meio ambiente, além de ter custo muito menor do que os outros aquecedores à base de energia solar.
     A idéia do aparelho surgiu em fevereiro do ano passado, quando o país vivia um período de crise energética. A equipe de alunos do curso de Tecnologia em Fabricação Mecânica da Universitas, coordenada pelo físico nuclear Jorge Henrique Sales, fez um levantamento do custo de energia com chuveiro elétrico e os resultados foram espantosos. "Se as famílias de baixa renda substituíssem a energia elétrica pela solar, a economia chegaria a 35%", afirma Sales. Segundo dados do censo de 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 52% das pessoas que têm alguma ocupação no Brasil recebem no máximo dois salários-mínimos. "Nossa preocupação é desenvolver opções para reduzir os gastos dessas pessoas", destaca.
     Segundo o pesquisador, as latinhas foram usadas porque, ao serem cortadas transversalmente, lembram o formato de uma lente côncava. Os canos que conduzem a água até o chuveiro do usuário são colocados no foco dessas "lentes", ou seja, no centro das latas, enfileiradas em uma caixa de metal pintada de preto e vedada com vidro.
 
 
O aquecedor de água desenvolvido pela equipe da Universitas usa latas de alumínio cortadas e enfileiradas em uma caixa de metal preta vedada com um vidro, o que permite a absorção da luz solar e gera um aumento de temperatura. Os canos que levam a água até o chuveiro passam por dentro das latas (no detalhe). (Fotos cedidas pelo pesquisador).
 
     O equipamento combina três efeitos que resultam em um bom aumento de temperatura, capaz de aquecer a água. "A latinhas refletem os raios solares em direção aos canos, a cor negra no fundo da caixa absorve a luz solar e o vidro retém ainda mais o calor por causa do efeito estufa gerado por esse sistema fechado", explica Sales. Segundo ele, o aparelho deve custar aproximadamente R$ 540, contra R$ 3 mil dos aquecedores solares convencionais. Com o desgaste provocado pelo tempo de uso, as latas podem ser recicladas e substituídas por outras.
     Por enquanto, os testes com o aquecedor de latinhas estão sendo feitos em uma casa experimental, construída pelos estudantes de Engenharia Civil do Centro Universitário de Itajubá, onde todos os aparelhos internos são protótipos de baixo custo. No futuro, a equipe pretende implantar essa tecnologia em uma comunidade carente da cidade mineira. "Nosso objetivo é usar o aparelho para finalidades sociais, melhorando a vida da comunidade de baixa renda", conclui.

Autor: Fabíola Bezerra - Ciência Hoje On-line

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Aviões podem causar pandemias mundiais

Um surto em um país pode ser levado em algumas horas a outro.
Perigo é real e vai aumentar nos próximos anos, diz OMS.
 
     A prioridade em matéria de saúde para este século é evitar a propagação de doenças infecciosas entre países para evitar pandemias mundiais, segundo o relatório de 2007 da Organização Mundial de Saúde (OMS), divulgado nesta quarta-feira (22).
     No texto, a OMS lembra que as companhias aéreas transportam mais de 2 bilhões de passageiros anualmente, "proporcionando, assim, as oportunidades para os agentes infecciosos e seus vetores se propagarem rapidamente de um país a outro".
     "Um surto ou uma epidemia em certo lugar do mundo pode se transformar, em apenas algumas horas, em uma ameaça iminente em qualquer outro ponto do planeta", acrescenta o relatório.
     A OMS não só considera que as ameaças existem, mas acredita que vão crescer, já que, de acordo com o documento, "estão surgindo novas doenças em um ritmo sem precedentes, de uma por ano". Nos últimos cinco anos, o organismo registrou mais de 1.100 epidemias.
     O cólera, a febre amarela e as meningocócicas epidêmicas reapareceram nos últimos 25 anos, e a disseminação da resistência aos antibióticos ameaça gravemente a luta contra as doenças infecciosas, segundo a organização.
     A OMS fala, também, sobre o crescimento da "farmacorresistência" e sobre a aparição de novas doenças transmitidas pelos alimentos, como o mal da Vaca Louca (encefalopatia espongiforme bovina).
     Além disso, o relatório destaca três novas ameaças para a saúde surgidas no século XXI: o bioterrorismo, a aparição da Sars (Síndrome Respiratória Aguda Severa) e a poluição com resíduos químicos tóxicos.
     "A Sars, primeira doença a surgir neste século, confirmou o temor, gerado pela ameaça bioterrorista, de que um agente patogênico novo ou pouco comum possa ter profundas repercussões na saúde pública e na segurança econômica em escala internacional", afirma o relatório.
     A OMS diz que seria muito "ingênuo" e um "excesso de confiança, supor que não surgirá, mais cedo ou mais tarde, outra doença como a aids, a febre hemorrágica do Ebola ou a Sars".
     "Se surgir um vírus pandêmico plenamente transmissível, não será possível evitar a propagação da doença, que afetaria aproximadamente 25% da população mundial", acrescenta o texto.
     "Os cientistas concordam que o risco de uma pandemia continua. A questão não é se esta surgirá, mas quando", enfatiza o relatório. Por isso, segundo a OMS, é necessário que todos os países tenham recursos suficientes para detectar doenças e que colaborem entre si frente a emergências de saúde pública de importância internacional.
     Muitas das emergências de saúde pública descritas neste relatório poderiam ter sido prevenidas ou controladas melhor, se os países afetados tivessem sistemas de saúde mais sólidos e mais bem preparados" e, principalmente, se tivessem alertado a comunidade internacional, afirma o documento.
     A OMS defende o total cumprimento do Regulamento Sanitário Internacional (RSI), aprovado em 2005, mas que só entrou em vigor em junho de 2007. A finalidade do regulamento é deter as doenças no lugar de origem e em suas fronteiras internacionais. Isto seria feito por prevenção, detecção e avaliação dos incidentes que possam gerar emergência de saúde pública de importância internacional.
     O RSI obriga a notificação internacional no caso do surgimento de qualquer caso de doença que possa pôr em perigo a segurança sanitária mundial. De acordo com o relatório, "nenhum país, nem rico nem pobre, está suficientemente protegido contra a chegada de uma doença nova a seu território e às perturbações que isto pode causar".
 
Autor: EFE - G1

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quarta-feira, 22 de agosto de 2007

No RS, 148 plantas ameaçam o ecossistema

Espécies 'invasoras' levadas para a região serrana do Rio Grande do Sul prejudicam o crescimento da vegetação nativa de áreas protegidas.
 
     Um estudo que está sendo feito pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) em parceria com o PNUD detectou a existência de 148 tipos de plantas exóticas (originárias de outros países ou continentes) prejudiciais a áreas de preservação ambiental na Serra Gaúcha. Essas plantas dificultam o crescimento das espécies naturais, pois competem por nutrientes e por água do solo, causam sombras, soltam substâncias tóxicas da terra, aumentam o impacto dos incêndios criminosos, dificultam o fluxo da água nos córregos, bloqueiam a penetração da luz nos rios ou aumentam a erosão nos campos.
     O estudo faz parte do projeto "Desenvolvimento Florestal Sustentável", que passou a ser executado pelas duas instituições neste ano. O objetivo é fazer um levantamento das plantas exóticas presentes nas Áreas de Preservação Permanente e nas Reservas Legais da Serra Gaúcha. A região abrange municípios como Canela, Gramado, Bento Gonçalves, Caxias do Sul, Vacaria e São José dos Ausentes e é caracterizada por campos naturais, banhados e Mata Atlântica. Nas áreas protegidas existem muitas espécies endêmicas, raras e ameaçadas de extinção, destaca a consultora do PNUD no IBAMA, Ana Carla Santos Pereira.
     As invasoras podem ser introduzidas por institutos de pesquisa e extensão agropecuária, por agricultores, por colecionadores de plantas, por governos, que muitas vezes não têm recursos para pesquisa e vigilância, e mesmo pelo consumidor. "Muitas vezes, viajamos e levamos uma planta que gostamos para casa. Só que ela pode ter um potencial muito grande de ser invasora", afirma Ana Carla.
     A maioria das plantas exóticas que se proliferam na Serra Gaúcha vem de regiões frias do hemisfério norte. Mas algumas espécies invasoras encontradas na região são tropicais, de acordo com Ana Carla. "Elas não deveriam se adaptar ao frio, mas se adaptaram porque se proliferam em locais perturbados, em que há desmatamentos, extração de rochas e minerais, assoreamento, poluição e abertura de estradas. E nem áreas protegidas estão livre de invasões. Existem muitas áreas de conservação permanente com problemas sérissimos", completa.
 
Pinus (Pinus taeda)
 
     Entre as espécies invadoras (plantas exóticas prejudiciais ao ecossistema invadido) presentes nas áreas estudadas, a que mais se disseminou foi o pinheiro originado dos EUA (Pinus taeda). Ele aparece em áreas de campos naturais do Parque Nacional de Aparados da Serra e no Parque Nacional da Serra Geral, ambas no município de Cambará do Sul. "Onde tem esse pinheiro, não nasce nada embaixo. Ele libera substâncias tóxicas no solo que permanecem mesmo depois que é cortado", diz Ana Carla. Outro invador na região é o lírio-do-brejo (Hedychium coronarium), a principal espécie invasora do país, que domina, principalmente, as áreas úmidas. "Ele elimina todas as espécies mais baixas, devido ao sombreamento intenso", afirma a consultora.
 
Lírio-do-brejo (Hedychium coronarium)
 
     Com a pesquisa, destaca, pretende-se chamar atenção das pessoas para os perigos que essas plantas exóticas representam para os ambientes nativos. "A difusão dos conhecimentos sobre os impactos das invasões pode ajudar no controle", ressalta. "A invasão por algumas espécies já tomou proporções preocupantes, e não temos a pretensão de eliminá-las. Nesses casos, temos que investir na prevenção, evitando o plantio e o alastramento das invasões". Segundo ela, ao final do projeto uma cartilha sobre as espécies invasoras será produzida e distribuída em escolas, fazendas e propriedades rurais.
     A consultora alerta que manter essas espécies em Área de Proteção Permanente é ilegal. O crime está previsto na Lei dos Crimes Ambientais (lei número 9.605 http://www.planalto.gov.br/ccivil/leis/L9605.htm) e na lei que criou o SNUC (Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (lei número 9.985 http://www.planalto.gov.br/CCIVIL/Leis/L9985.htm).
 
Autora: Talita Bedinelli, do PNUD

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segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Clima: cientistas buscam novas formas de ver riscos

     Cientistas estão tentando melhorar as previsões sobre o impacto do aquecimento global neste século reunindo estimativas sobre o risco de inundações ou de desertificação.
     "Temos certeza sobre alguns dos aspectos da futura mudança climática, como o de que vai ficar mais quente", disse Matthew Collins, do Met Office (Departamento Britânico de Meteorologia). "Mas muitos dos detalhes são difíceis de dizer", acrescentou.
     "A forma como podemos lidar com isso é uma nova técnica de expressar as previsões em termos de probabilidades", disse Collins, referindo-se à pesquisa climática publicada na revista Philosophical Transactions, da Real Sociedade britânica.
     Os cientistas do painel climático da ONU, por exemplo, usam complexos modelos informatizados para prever o impacto do aquecimento neste século, em quesitos como precipitação pluviométrica na África ou elevação no nível dos mares.
     Mas esses modelos têm falhas devido à falta de compreensão sobre a formação das nuvens ou a reação do gelo antártico ao aquecimento, por exemplo. Além disso, os registros de temperatura na maioria dos países remontam a apenas 150 anos.
     Sob as novas técnicas, "as previsões de diferentes modelos são somados para produzir estimativas da futura mudança climática, junto com suas incertezas associadas", disse a Real Sociedade em nota. A abordagem pode ajudar na quantificação de riscos para uma construtora que faça casas num vale inundável ou uma seguradora, por exemplo.
     Collins disse também que as incertezas incluem como os desastres naturais afetam o clima. Uma erupção vulcânica, como a do monte Pinatubo, nas Filipinas, em 1991, pode temporariamente resfriar a Terra, porque a poeira bloqueia a luz solar. "A ciência climática é uma ciência muito nova, e mal começamos a explorar as incertezas", disse David Stainforth, da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha), que contribuiu com a pesquisa da Real Sociedade.
     "Devemos esperar que a incerteza aumente em vez de diminuir", afirmou ele, referindo-se às pesquisas dos próximos anos e acrescentando que isso complica a precisão no estabelecimento de probabilidades.
     Por exemplo, arquitetos que projetam escolas na Europa querem saber se haverá mais ondas de calor, como a de 2003, quando as crianças chegaram a ser proibidas de brincar nos pátios devido ao risco de queimaduras e câncer de pele. De posse dessa previsão, os arquitetos poderiam projetar escolas com mais áreas sombreadas para brincar.
     "Mas pode ser o caso de que temperaturas mais altas signifiquem mais nuvens, então não haveria o risco de câncer de pele. Fatores alheios à temperatura são os mais difíceis de prever", explicou Stainforth.
 
Fonte: Terra - Reuters

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Lado B do livro "O mundo sem nós" escancara divórcio fatal entre os humanos e o planeta

     Para o autor, Allan Weisman, a espécie humana já alterou o curso da Terra
Eduardo Geraque escreve para o caderno "Mais" da "Folha de SP":
    Apesar de ter, talvez, um título errado e algumas páginas arrastadas demais, o livro "O Mundo Sem Nós", do professor-jornalista americano Allan Weisman, que acaba de chegar ao mercado brasileiro pela Editora Planeta, tem pelo menos um ponto bastante relevante.
    Na verdade, o leitor que resolver atravessar as 382 páginas da obra deveria fazer isso com a atenção redobrada em um outro livro que também está ali, diante dos seus olhos, mas que não foi o objetivo principal do escritor americano.
    Como sem presente não existe futuro, antes de pensar no legado humano quando, por ventura, o Homo sapiens desaparecer de vez, é preciso antes de mais nada refletir no mundo com esses seres vivos sobre ele.
    "O mundo conosco" poderia ser o título desse lado B da obra do jornalista americano, que também tem uma visão bem americana de mundo.
     Em um capítulo sobre evolução humana, por exemplo, teorias acalentadas por cientistas brasileiros -para quem a ocupação das Américas foi bem mais antiga do que se imagina- foram solenemente ignoradas.
     E, nesse caminho oculto do livro, os exemplos que aparecem são espetaculares e trágicos, apesar de Weisman – que além de viajar pelo mundo atrás de boas histórias também leciona na Universidade do Arizona – tentar dar um final menos apocalíptico a sua obra.
     No livro – que não é de ficção científica mas sim de não-ficção, baseado em extenso conjunto de fontes de vários segmentos – o jornalista descreve, por exemplo, como seriam os dias seguintes de Nova York (EUA) sem os seus moradores.
     O início do fim da cidade não demoraria quase nada, segundo o autor.
     Em 48 horas, os túneis do metrô já estariam totalmente inundados. Isso só não ocorre normalmente hoje porque funcionários e bombas d'água estão sempre trabalhando. (Excepcionalmente, as chuvas desta última semana conseguiram vencer os esforços humanos.)
     Os charmosos edifícios que formam hoje o "skyline" de Manhattan, estariam quase todos em ruínas em quatro anos por causa do ciclo congelamento-descongelamento.
     A queda de um deles teria o mesmo efeito que uma árvore caindo na floresta. Clareiras seriam abertas na selva de pedra.
     Em 500 anos, a floresta estaria de volta. É mesmo! As grandes cidades, como também é o caso de São Paulo, Rio de Janeiro e tantas outras no Brasil e no mundo, não estiveram onde estão desde o início.
 
     Plásticos invisíveis
     No mar, um outro rastro humano impensável para a maioria dos terráqueos foi descoberto por um grupo de pesquisadores ingleses, da Universidade de Plymouth.
     Há algum tempo eles estavam tentando saber o que era pequenos grânulos estranhos que apareciam sob os seus microscópios.
     A história, segundo o escritor americano, começou mais ou menos assim:
     O pesquisador Mark Browne, certo dia, resolveu abrir o armário de uma laboratório onde mulheres guardavam seus produtos de beleza. Estavam lá cremes e detergentes para as mãos.
     Todos eram considerados esfoliantes, mas nem todos eram 100% naturais.
Isso que significa dizer, segundo Browne, que enquanto alguns fabricantes usavam sementes de uva ou sal marinho para esfoliar a pele, outros partiram para o plástico.
     "Grânulos microfinos de polietileno" disse o pesquisador. Isso mesmo, Browne descobriu o que eram aqueles elementos estranhos. O ciclo se fechou.
     Esses produtos, portanto, contém plásticos que vão diretamente para o ralo, para a rede de esgotos, para os rios e os oceanos. E, claro, são engolidos pelos seres marinhos.
     O cientista, preocupado com o presente mas olhando para o futuro, chega a se arrepiar. Para ele, não existe dúvida. Mesmo que a produção de plásticos acabasse hoje, a cadeia marinha vai precisar "lidar" com esses grânulos de plásticos por milhares de anos.
     Ao passear por terras e mares, Weisman acaba compondo um conjunto quase cansativo de exemplos que provam que a espécie humana já alterou o curso da Terra.
     Talvez, grande parte dos leitores do livro, nem achem isso necessariamente ruim. Afinal, a vida (e o consumo "moderno") deve seguir.
     O mais interessante, talvez, para aqueles que sabem que a espécie humana é que vive sobre o planeta e não o contrário, é perceber que depois de tudo acabar, mesmo com uma série de cicatrizes, o planeta e o universo vão conseguir seguir em frente sem muitos problemas.
     E apenas algumas estátuas de bronze, além do lixo atômico, por exemplo, ficarão para ser descobertas em um futuro muito, mas muito, distante.
 
Fonte: do Livro - "O Mundo Sem Nós" de Alan Weisman (Folha de SP, Mais!, 12/8)
 
Sobre o problema do plástico nos oceanos leia:
 
 
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sábado, 11 de agosto de 2007

Nós, as bactérias

Genômica permitirá mapear os trilhões de microrganismos que habitam nosso corpo, mostra colunista 
 
     Nós, humanos, iniciamos nossa vida na concepção com um única célula, o zigoto, produzido pela união de um óvulo e um espermatozóide. Através de um processo maravilhoso de multiplicação e diferenciação celular, esse zigoto dá origem a 10 trilhões de células de mais de uma centena de tipos variados no adulto. Fato : o Projeto Genoma Humano, terminado em 2003, elucidou toda a seqüência de bases do genoma humano. Conseqüência : temos todo o mapa genético para poder entender o corpo humano na saúde e na doença, certo? Erradíssimo!!!
 

Bactérias na superfície do intestino grosso humano. Foto: Gross L (2007) Human Gut Hosts a Dynamically Evolving Microbial Ecosystem. PLoS Biol 5(7): e199.   
    
     O corpo humano na verdade contém 100 trilhões de células, e não meros 10 trilhões. O que acontece é que 90% das células do nosso corpo são microrganismos que vivem simbioticamente em nosso intestino, estômago, boca, nariz, garganta, aparelho respiratório e sistema geniturinário. As bactérias que constituem essa microbiota derivam seus nutrientes de nós, mas pagam pela hospedagem se encarregando de várias tarefas essenciais para nossa saúde, incluindo a proteção contra patógenos e a conversão metabólica de nutrientes.
     Não quero induzir os leitores a uma crise de identidade, mas nosso corpo é de fato mais microbiano do que humano. Ele constitui um verdadeiro sistema ecológico com grande biodiversidade, um superorganismo. Agregado ao genoma humano propriamente dito, temos esse genoma bacteriano suplementar, chamado "microbioma", que contém cem vezes mais genes do que o nosso próprio.
     A grande novidade na praça é que um grupo de cientistas, com o patrocínio dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos, deu recentemente o pontapé de partida ao "Projeto do Microbioma Humano". Considerando que estamos falando de milhares de espécies de bactérias, como é tecnicamente possível fazer o seqüenciamento desse genoma coletivo?
 
     Metagenômica
     Como escreveu Stephen Jay Gould no seu excelente livro Full house: a difusão da excelência de Platão a Darwin , as bactérias são – e sempre foram – as formas dominantes de vida na Terra. A história das bactérias é a própria história da vida no planeta, desde que os primeiros fósseis – bactérias, é lógico – foram emparedados em rochas, há mais de três bilhões e meio de anos.
     Ocorre que até hoje catalogamos apenas uma minúscula fração de todas as bactérias existentes, pois nosso conhecimento delas é totalmente dependente do cultivo e estudo em laboratório. No entanto, talvez a maioria delas não seja cultivável. Recentemente foi desenvolvida uma nova estratégia para capturar e estudar toda a diversidade dos microrganismos na Terra, a metagenômica. A proposta é trocar os meios de cultura do laboratório e a lente do microscópio pela tecnologia da genômica e da bioinformática.
 
 
O notável cientista J. Craig Venter pilotando seu iate-laboratório Sorcerer II . Venter é um iconoclasta, mas possivelmente o maior cientista biomédico americano da atualidade. Entre suas muitas conquistas científicas, podemos destacar: desenvolvimento da metodologia de etiquetas de seqüências transcritas (ESTs) para estudar o transcriptoma humano, desenvolvimento do seqüenciamento genômico total em "tiro de cartucheira" ( shotgun sequencing ), responsável pelo primeiro genoma completo ( H. influenzae em 1995), co-responsável pelo seqüenciamento do genoma humano, pioneiro da biologia sintética e da metagenômica. Em 1992 Venter esteve no Brasil como nosso convidado para participar da Conferência Sul-Norte do Genoma Humano em Caxambu. Logo depois, nosso grupo de pesquisa na UFMG iniciou uma colaboração com Venter que permitiu começar o primeiro esforço genômico brasileiro, o mapeamento de genes do parasito Schistosoma mansoni . Venter foi co-autor de nossa primeira publicação com os resultados do projeto (foto: Craig Venter Institute).  
 
     A estratégia metagenômica foi idealizada pelo legendário "genomicista" americano J. Craig Venter. Ele transformou seu iate pessoal Sorcerer II em um laboratório marinho e, em um projeto-piloto, examinou espécies de bactéria vivendo na água do Mar de Sargaços, circundando Bermuda no Atlântico norte, cujas águas paradas possibilitam o desenvolvimento de imensa quantidade de algas.
     A tática experimental foi simplesmente colher amostras de água do mar e passá-las através de filtros bacterianos. O DNA das bactérias presas no filtro foi, então, extraído, fragmentado de maneiras diferentes e submetido ao seqüenciamento de DNA à la "tiro de cartucheira" ( shotgun sequencing ). As leituras foram, então, montadas como um quebra-cabeça e as espécies de bactérias enumeradas e caracterizadas por sofisticadas e poderosas ferramentas bioinformáticas. No estudo piloto, Venter identificou 1,2 milhões de genes em cerca de 1800 espécies de bactérias diferentes.
     Na esteira desse sucesso, Venter e sua equipe agora estão dedicados à tarefa de circunavegar a Terra no Sorcerer II colhendo e caracterizando metagenomicamente amostras de todos os mares. Os resultados têm sido espetaculares. Em março deste ano, por exemplo, eles publicaram um artigo no periódico PLoS Biology que descreve um verdadeiro tour de force (todos os artigos da Expedição de Coleta Oceânica Global de Venter podem ser obtidos clicando aqui ).
     Esse artigo relata o seqüenciamento de mais de 6 bilhões de pares de base de DNA (duas vezes o genoma humano) e a identificação de mais de 6 milhões de proteínas diferentes. Isso equivale a mais que o dobro do número de todas as proteínas descritas e presentes em bancos de dados até 2007. Várias das novas proteínas descobertas não tinham similaridade com qualquer outra descrita até hoje e parecem representar famílias protéicas completamente novas!
 
     O Projeto do Microbioma Humano
     Para o projeto do microbioma humano a mesma estratégia metagenômica vai ser utilizada, só que sem precisar sair de casa. Em vez das águas dos sete mares, serão utilizadas prosaicas amostras de fezes, saliva, secreções vaginais e esfregaços de pele humana.
     Um estudo piloto do microbioma foi realizado nos Estados Unidos pela equipe do antigo Instituto para Pesquisa Genômica (recentemente renomeado Instituto Craig Venter) e publicado em 2006 na Science . Foram estudadas amostras de fezes de dois adultos sadios que não haviam recebido antibióticos por mais de um ano. A partir daí os pesquisadores geraram mais de 60 mil seqüências de DNA de cada indivíduo.
 
 
Um estudo piloto do microbioma sugere que a Methanobrevibacter smithii , retratada acima, é uma arqueobactéria metanogênica comum no intestino humano (foto: National Research Council Canada).  
 
     Foram encontrados centenas de tipos bacterianos, mas a maioria pertencia a apenas duas divisões chamadas Firmicutes e Bacteroidetes. Além disso, uma arqueobactéria metanogênica ( Methanobrevibacter smithii ) era muito comum. Isso demonstrou ao mesmo tempo grande diversidade e grande especificidade da microbiota intestinal, pois são conhecidas nada menos que 70 divisões de bactérias e 13 divisões de Archeae.
     Podemos perguntar se o nosso microbioma é específico e individual como o nosso genoma. Existe em nós uma "impressão digital" bacteriana? Os estudos feitos até agora parecem indicar que sim. Os resultados revelaram que a composição da microbiota intestinal varia bastante entre indivíduos, mas que a variação ocorre primariamente entre espécies e subespécies de Firmicutes e Bacteroidetes. Também foi identificado que no hábitat intestinal algumas espécies de bactérias parecem ser residentes permanentes (componentes autóctones), enquanto outras aparentemente são transeuntes (componentes alóctones), de passagem junto com comida, água etc.
     Isso faz sentido teórico. A persistência de bactérias em nossa pele e cavidades corporais depende de interação com componentes da membrana de nossas células, os quais são frequentemente polimórficos, dependendo do nosso genoma. Assim, nossa individualidade genômica pode determinar uma individualidade microbiômica.
     Mas como é construído o microbioma? No útero, não temos nenhuma bactéria no nosso corpo. Começamos a adquirir nosso "eu bacteriano" no próprio processo de nascer, pelo contato com microrganismos do canal vaginal materno. Em um artigo recente, uma equipe da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, estudou o processo de aquisição da flora microbiana intestinal por 14 bebês.
     Foi observado que no final do primeiro ano de vida as crianças haviam atingido um padrão essencialmente adulto de diversidade bacteriana, mas que havia diferenças significativas entre elas. Os dois bebês com a flora mais parecida eram dois gêmeos dizigóticos. Isso sugere que o ambiente também pode ser instrumental em determinar a natureza da nossa microbiota. 
 
     A ecologia da saúde e da doença  
     A visão do corpo humano como um superorganismo pode nos permitir ver saúde e doença em termos de equilíbrio ou desequilíbrio ecológico. Sabemos que os microrganismos sintetizam vitaminas essenciais para o nosso metabolismo e possibilitam a digestão de alguns nutrientes.
     Não temos, por exemplo, a maquinaria química necessária para quebrar totalmente a celulose das plantas em seus constituintes elementares, mas as bactérias nos fornecem enzimas chaves deste processo, como a celobiase. Além disso, a nossa microbiota ocupa nichos ecológicos no nosso corpo que poderiam ser colonizados por patógenos.
 
 
Um estudo feito em 2006 apontou diferenças significativas entre a proporção de bactérias do grupo das Firmicutes em indivíduos magros e obesos (arte: Laura Kyro, Zhen He, Largus Angenent e Jeffrey Gordon). 
 
     Alguns resultados muito interessantes têm emergido sobre a interação entre a microbiota e nosso status metabólico. Em dezembro de 2006 o grupo de Jeffrey Gordon na Universidade Washington em Saint Louis, nos Estados Unidos, publicou na Nature um estudo instigante sobre a relação entre a flora intestinal e a obesidade.
     Os autores estudaram indivíduos obesos e descobriram que a proporção de bactérias Firmicutes era significativamente mais alta do que em controles magros. Ademais, quando os obesos foram colocados em uma dieta e perderam peso durante um período de um ano, a proporção de Firmicutes caiu e ficou mais parecida com a de pessoas magras. Obviamente, essas correlações não demonstram causa-e-efeito e na verdade nem sabemos se a microbiota é a galinha ou o ovo neste caso.
     Muitas perguntas permanecem. Até que ponto somos dependentes da população bacteriana que compõe nosso corpo? Mudanças na constituição da microbiota podem levar a problemas metabólicos outros que não a obesidade? E as doenças inflamatórias intestinais como a doença de Crohn e a colite ulcerativa? Será que hospedar espécies erradas de simbiontes bacterianos pode causar câncer, diabetes, doença cardiovascular? Seremos capazes no futuro de manipular nossa flora bacteriana corporal para prevenir ou curar doenças? Esperamos que as respostas a todas estas questões possam emergir do promissor Projeto do Microbioma Humano.
     Até lá, só nos resta mudar o paradigma vigente com relação às bactérias. Elas não são nossas inimigas, que precisam ser destruídas e eliminadas de nossa vida com desinfetantes e antibióticos. Ao contrário, são parte integral e fundamental de nós mesmos.

Autor: Sergio Danilo Pena - Professor Titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia - Universidade Federal de Minas Gerais

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